sexta-feira, 21 de abril de 2017

troca semiótica


Dentro de casa era escuro. Era úmido. Era triste e solitário. Eu tinha acabado de desligar o telefone e aqueles dizeres de sempre latejavam com o meu coração. Ele me dizia que tinha sede de vida. Sede de liberdade. Que do jeito que estava não dava. E para que conseguíssemos conversar, e resolver de vez a situação teríamos que nos encontrar e o falar de olho-no-olho.
Já era sol de novo, mas a rua e a vida continuavam molhadas. Eu estava no aterro de algum daqueles times de futebol cuja bandeira é rubra e negra. Eu era preta, vermelho era o meu sangue. Algumas poucas daquelas bandeiras ainda balançavam por ali o resultado do jogo da manhã. O mar era revolto, mas com a vinda do sol se acalmou, ainda estava meio indeciso na sua vai-e-venhice e os barcos apenas obedecendo às ordens de seus superiores. A areia se sentindo renovar e os transeuntes ali a poupavam, parecendo entender esse momento, sua necessidade e transferindo o interesse social todo para o aterro. 
Não me saía da cabeça aquele encontro que há uns dois mil metros atrás eu presenciara. Calçadinhas e pedrinhas. Muitas pedrinhas tiradas de terras próximas por gente que não se sabe quem é nem por onde anda. Pontes sobre plantas e águas represadas e eu estava na Praça Paris acompanhada de suas presentes pombinhas divinais. Divinal se fez aquele encontro, que dentro do meu coração esperançoso parecia ser algo eterno. Ele vestia tênis amarelo, calça jeans e jaqueta moletom. Usava na cabeça um moicano torrencial. Já aquele outro, vestia chinelo, bermuda de flores hibiscos e camiseta normal. Engraçado, e eu reparei, era tudo da mesma marca. Ele deveria ter seu sol em virgem. Estaria por anivesariar. Até os óculos escuros que levava na testa seguiam a marca do resto. E que bom que estavam na testa, pois seus olhos se encontraram num cruzamento, que foi o que me trouxe a sensação de eternidade. Se viram, se assustaram, se aceitaram. Mal sabiam aqueles olhos, que meus olhos apaixonados depositavam um tanto da fé do meu ser, em seus seres que mereciam encontrar também o amor. Os quatro pés dos rapazes pararam e meus dois seguiram em frente. Uma boa dose de esperança, chefia! 
Sandálias de couro vestiam meus pés e já chovia novamente. A sensação era de limpeza. Devia ser a mesma sensação da senhora que se banhava na enxurrada da Rua Marquês de Olinda, saindo ali da Muniz Barreto, de onde eu vinha. Vestidos de alvo e negro e com algumas lágrimas ainda nos olhos, alimentando a umidade do dia, cada um reagia a seu modo, àquele banho de chuva em águas correntes. Um homem vermelho e careca, alto e gordo, com um bigodão à la Leôncio, camisa estilizada do clube, todos os botões abertos, com um canecão de chopp em uma mão, e em outra um toroço de torresmo, se ria da mulher que não cabia em si. De idade, a mulher devia ter uns trinta e cinco, mas tinha cara de quarenta, já esse senhor devia mesmo ter os cinquenta e cinco que aparentava, e se ria de uma forma violenta, com um ar de vingança, que parecia soprar as palavras: "bem feito". Um ar de quem um dia amou aquela mulher, mas não pôde ter em seu amor correspondência. Riu tanto que se engasgou no seu torresmo. E tava já caído no chão parecendo sofrer um ataque qualquer. No mesmo momento um garotinho feliz ia também brincar nas águas, se apaixonou também por aquela mulher. Feliz por ainda não conhecer as amálgamas do amor. Ali todos choravam de amor. 1x3 tinha sido o resultado do jogo, mas ele ainda não sabia que amor fazia sofrer. Todos pareciam conhecê-la, menos o garotinho foguense. Sua mãe, que em uma mão tinha um cigarro aceso e em outra um copo de cerveja, desses americanos, parecia conhecê-la muito bem, que ao primeiro sinal do garoto de transposição espacial da barra da sua saia, para junto da mulher banhista, o vi levar um beliscão, que eu não lembro de ter levado. Beliscão este dado com a mesma mão que segurava o cigarro que acabou queimando o garoto.
 Eu também vivia amor, e também vivia dúvidas, mas via que meus pés sozinhos sabiam bem chegar no número 51 da Rua Bambina, e lá estava eu sem saber o que fazer. Eu não sabia se eu chegaria mesmo ali, e se chegasse, queria falar, mas não sabia o quê. Sabia que sabia um pouquinho, mas aí também não sabia como o fazer. Acendi meu cigarro e me agredi de diversas formas. Me achei submissa por me deslocar até ali. Me achei tonta, tive certeza, por um instante que não o amava, porquê o amor era uma via de mão dupla. Me senti cansada, mas disposta a fazer o caminho de volta. Estava quase voltando, e s. José, pelo interfone, lançou a âncora, me chamando pelo nome. Ô, minha Flô, veio ver s. Danié? Vim, s. José, mas acho que desisti. Faz isso não, menina. Vou chamar ele pra senhora. E enquanto ele chamava, eu pensava comigo mesma, como é que podia, um senhor com seus setenta e tantos anos, chamando a mim, uma mocinha de vinte e oito, mas com cara de dezoito, de senhora. Quanta inversão de valores. 
Com a mesma âncora s. José me chamou de novo. Disse que achava que s. Danié não tava, e que pensando bem, achava que nem tinha dormido em casa. Valeu, s. José, vou dormir bem com essa. Despedi-me de s. José como se fosse a última vez em que o veria. Mas ele nem-nem, só deu um sorrisinho de canto de boca. 
Eu já estava de novo na Muniz, e lá vem Seu José gritando: D. Ana, d. Ana! Ele tava no banheiro. Disse pra senhora subir. Mas s. José, o senhor não pode correr assim. Ah, conheço vocês dois, minha fia. Faço só o que Deus fala pra ieu fazer. Às vezes vou com o tinhoso também, mas é poucas e eu sempre me arrependo.
Subi, completamente molhada, externa e internamente. Preto no Branco era o cenário em volta e também o início da conversa. Abri minhas aflições mesmo tendo que me abrir demais. Demonstrei minha insegurança, desmontei minha armadura. Ele, sempre parecendo mais maduro, me falava de limpeza, de transformação, de ensinamento. Era impressionante como a segurança dele me seduzia e em mim era a insegurança que despertava nele o tesão. Se eu realmente pudesse, eu realmente enlouquecia, e, cada cinco segundos que nossos olhos passavam juntos, cinco centímetros mais perto um do outro estávamos. Quando me dei por mim de novo, me dei por nós dois. Éramos um corpo só. Um só corpo sedento, tendo em vista fontes infindáveis.
Naquele momento senti que toda a sua sede de vida e liberdade começava se ser saciada pela seiva que irrigava meu solo fértil. Eu sangrava e ele bebia. Ele jorrava, a gente sorria. Era o início de um novo ciclo.



terça-feira, 18 de abril de 2017

O palhaço.

Ele é um cara solitário.
No mercado compra
Um maço de cigarros
Com vinte maços dentro
Que dentro deles vinte cigarros.
Todos eles importados.
Um galão com cinco litros de água.
Snaks pro Bóris.
Ele tem dez chapéus.
Cinco pretos. Dois roxos. Um verde e um vermelho - namora uma vez por ano.
Ele até é engraçado, mas sua expressão é triste.
Ele tem um cachorro. Dez anos tem o Bóris.
- Senta. - Deita. Não. Não rola!
- Agora me salta!
Muito bem e essa é sua interação social.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Uma poeira sonora onde carros vêm ao meu encontro mas nunca chegam. Ouço também o coração do meu amor a bater fraco, desencorajado pelo tempo de amor recluso. Eu ouço.
Se o que nos une é a distância, né... Fazê u Q?
Sorte no azar

E amor no jogo.
Minha lua era em sagitário e eu era guiada por ela. Ainda não era muito frio mas meu amor já usava luvas.
Depois do apocalipse eu desacelerei e furtei pra mim as coisas boas do meu futuro presente.
Não se joga uma epígrafe como se joga queijo ralado.

Aquele a quem eu conhecia o pouco tempo já engoliu.
As gotas que se acumulam na parte inferior do cilindro de metal no corrimão do meu caminho, permitem que com a minha mão eu as traga comigo até que caiam no chão, seu destino final temporário. Minha mão escorrega no corrimão molhado e ele canta. Às vezes vêm junto as folhinhas de Flamboyant e essa sensação transforma o começo do outono em minha preferida época do ano.